Fui uma profissional do mercado financeiro durante muitos anos e, nesse percurso, aprendi rapidamente que acesso, custo e retorno sobre o capital são os fatores determinantes que regem as relações entre países, instituições, empreendedores e indivíduos.
Essa referência simples estabelece, de forma pragmática e muitas vezes implacável, a diferença entre sucesso e fracasso.
Ao migrar integralmente para a agenda de impacto no último ano, percebi que esses mesmos fundamentos continuam sendo, em última instância, os principais indicadores de sucesso e maturidade das teses. No entanto, três novos elementos passam a compor essa equação. O primeiro é a coexistência de diferentes custos de capital, que variam do recurso filantrópico — frequentemente sem expectativa de retorno financeiro — até estruturas sofisticadas de “blended finance”. O segundo é a ampliação do horizonte temporal para captura de resultados: deixamos de falar em dias ou meses e passamos a trabalhar com anos e décadas. O terceiro é a incorporação de métricas de sucesso que transcendem os indicadores financeiros tradicionais, incluindo avanços em educação, saúde, habitação, geração de renda, inclusão social e preservação ambiental.
Em tese, em um cenário de recursos ilimitados diante de problemas igualmente infinitos, a matriz de decisão se resumiria a calibrar intenções, alinhar objetivos entre os diferentes atores e adequar os instrumentos à natureza e à complexidade de cada desafio.
Mas a realidade atual é outra.
Vivemos um momento de crescente urgência em torno do propósito e, simultaneamente, de escassez de recursos. Nesse contexto, acredito que o caminho mais viável para destravar a agenda de impacto passa necessariamente pela geração de renda e criação de margem econômica, combinadas à entrega de benefícios concretos para a sociedade.
Mais uma vez, volto ao olhar pragmático que me formou: é preciso convergir as motivações de propósito com um DNA genuinamente orientado a negócios.
Porque, sob a ótica empresarial, não haverá sustentabilidade econômica em um mundo que falha. Não haverá crescimento consistente sem diversificação de portfólio, inovação de produtos e serviços, diferenciação de marca e fortalecimento do advocacy institucional.
A questão, portanto, é como promover essa convergência.
Na minha visão, não se trata mais de simplesmente aproximar universos tradicionalmente distintos, mas de efetivamente integrar e otimizar suas cadeias de valor.
Tomemos como exemplo a bioeconomia. O representante da comunidade que preserva e produz precisa estar conectado à indústria, ao consumidor, aos parceiros logísticos e financeiros e aos investidores. Da mesma forma, esses atores precisam estar presentes nos territórios, compreender as dinâmicas locais, dialogar com pesquisadores para entender os diferenciais funcionais dos ativos da natureza, discutir com gestores e operadores os desafios de execução, logística e governança, compreender o verdadeiro custo de toda a cadeia, seus riscos regulatórios e suas limitações estruturais.
Somente a partir dessa visão sistêmica as soluções conjuntas podem se tornar mais assertivas, eficientes e escaláveis.
Todos precisam compreender o todo.
Nesse sentido, vejo oito prioridades fundamentais:
1. Compreender o ecossistema em sua totalidade
É necessário mapear todos os atores envolvidos. Não podemos operar com fragmentos desconectados nem com múltiplos ecossistemas parciais que se relacionam apenas superficialmente. Visão sistêmica é condição básica para a transformação.
2. Fortalecer os elos intermediários e a governança das cadeias
Conselhos, gestores de projetos, desenvolvedores, incubadoras, aceleradoras, “venture builders”, universidades e centros de pesquisa cumprem papel essencial como integradores da cadeia. São eles que viabilizam profissionalização, inovação, coordenação e escala, garantindo que os benefícios gerados sejam compartilhados de forma mais equilibrada.
3. Viabilizar o diálogo e construir confiança
A transformação depende de interlocução qualificada. Precisamos de equipes especializadas capazes de facilitar aproximações, mediar interesses, construir linguagem comum e estabelecer relações duradouras de confiança entre os diferentes atores.
4. Combinar tecnologia, dados e desenvolvimento humano
Democratizar o acesso à tecnologia, inteligência artificial, blockchain e soluções avançadas de gestão de dados é fundamental para aumentar eficiência, reduzir custos e melhorar margens em toda a cadeia. Mas a tecnologia só gera transformação sustentável quando acompanhada por investimento consistente em pessoas e capacitação.
5. Profissionalizar a gestão e a mensuração
É fundamental ampliar o acesso a metodologias modernas de gestão e a serviços especializados, criando instrumentos adaptados às necessidades de cada elo da cadeia. A qualidade da mensuração será cada vez mais determinante para o acesso a recursos, e os investidores buscarão evidências robustas sobre profundidade, consistência e abrangência do impacto gerado.
6. Aproximar filantropia e finanças de impacto
Não existe capital filantrópico suficiente para responder à dimensão dos desafios atuais. O caminho passa pela combinação inteligente de instrumentos financeiros capazes de mobilizar novas bases de investidores por meio de gestores de impacto qualificados e estruturas adequadas de financiamento.
7. Reconhecer o papel fundamental do setor público
O setor privado não é, isoladamente, a solução para todos os problemas. Precisamos engajar o poder público de maneira organizada, estruturada e estratégica, por meio de mecanismos efetivos de “advocacy” que contribuam para a construção de ambientes institucionais mais favoráveis ao impacto.
8. Criar experiências memoráveis e promover o engajamento contínuo
A transformação também é cultural. Precisamos gerar experiências que inspirem, engajem e fortaleçam o senso de pertencimento dos diferentes atores, criando ciclos permanentes de aprendizado, adaptação e evolução.
Mas quem será responsável por viabilizar tudo isso?
Na minha visão, esse papel hoje só é possível através do elo do meio. São as organizações e lideranças que possuem a neutralidade necessária para conectar interesses diversos, a amplitude de atuação para enxergar a cadeia como um todo, a profundidade técnica para qualificar as soluções e a liberdade de uma atuação não incumbente, naturalmente orientada à transformação.
Concluindo, acredito em uma agenda de impacto cada vez mais sofisticada, capaz de combinar capacitação humana, tecnologia e modelos inovadores de gestão sem perder a clareza do propósito. Uma agenda construída sobre relações de confiança, métricas robustas e colaboração qualificada. Uma agenda em que convergência e transformação não acontecem por acaso, mas são resultado da atuação de lideranças modernas, ambiciosas e capazes de transitar entre os diferentes elos da cadeia sem vieses, conectando interesses, mobilizando recursos e acelerando mudanças reais e duradouras.

