A Conferência das Partes sobre Biodiversidade (1) em seu documento de dezembro de 2022, reconhece a interligação entre biodiversidade, saúde e os objetivos da convenção no sentido de criar uma visão holística entre a ciência, equilíbrio sustentável e a mobilização de atores tradicionais em seus territórios. O uso de recursos da natureza na produção de biomateriais é só um exemplo do que pode ser a produção de novos materiais que colocam a ação da natureza na saúde.
O potencial de uso sustentável da grande farmácia natural da Amazônia é gigante por essência. Para atingir esse potencial é essencial unir formas de extração de recursos da floresta que sejam de fato sustentáveis, respeitar e honrar o amplo conhecimento tradicional dos povos da floresta sobre o uso dela e as soluções inovadoras que são o produto da interseção entre bioeconomia, sustentabilidade e inovação.
As startups amazônicas de biotecnologia possuem esta visão de impacto positivo nas cadeias produtivas em que atuam como desenvolvedoras de soluções, mobilizando recursos tecnológicos, humanos e financeiros, alinhados a uma estratégia de pesquisa e desenvolvimento para criar produtos e processos que atendam às necessidades do mercado visando um público que busca soluções diferenciadas e mais naturais.
A BioSpin, startup em fase de aceleração no programa Sinergia, da Jornada Amazônia, é um bom reflexo desta interseção. A empresa possui uma solução voltada para a biomedicina através do uso de nanofibras com base em óleos amazônicos para a produção de curativos e liberação de medicamentos sobre a pele.
Neste sentido, passar da fase de escala laboratorial para a escala industrial piloto é um processo que exige muita estratégia no uso dos recursos e tempo disponíveis ao empreendedor, no que a BioSpin tem tido sucesso ao trabalhar em parcerias para a validação do produto. Um dos grandes desafios é superar a demanda de capital para aquisição de equipamentos e tecnologia e passar por toda a etapa regulatória até a entrada em operação comercial e, em paralelo, avaliar quais benefícios pode oferecer para o fortalecimento das cadeias de valor da floresta que proporcionam as matérias primas utilizadas em seus produtos.
A tendência é de avanços no uso de biorrecursos e biomateriais em outros campos além da medicina, mas será preciso um novo olhar de apoio e investimentos para as tecnologias emergentes que originam produtos baseados na floresta. Além de representar uma estratégia para reduzir o desmatamento, estimulando e fortalecendo cadeias regenerativas, os bioprodutos apresentam caminhos alternativos de originação de negócios inovadores com o alto grau tecnológico que a química tem a oferecer.
Em suma, garantir a viabilidade do negócio de biotecnologia exige tempo e um investimento contínuo que passa pelo rigor da pesquisa acadêmica, o olhar pragmático de viabilidade operacional, além do trabalho conjunto com as cadeias produtivas para que a demanda de biorrecursos esteja alinhada à visão regenerativa. Neste sentido, é importante proporcionar impactos positivos para as comunidades tradicionais que são peças-chave na descoberta e uso sustentável das espécies nativas, oferecendo conhecimento ancestral essencial para a biotecnologia, além de estar sempre atento aos direitos dessas comunidades sobre o conhecimento tradicional associado ao uso da biodiversidade brasileira e a prospecção de bioativos nas espécies amazônicas.
- Kunming-Montreal Global biodiversity framework Section C Biodiversity and Health .25 – CBD/COP/15/L.25 18 December 2022
Nota: Agradeço a colaboração da empresa BioSpin na revisão deste artigo.

