Por que a maioria das mentorias falha

O problema quase nunca é o negócio. É a pessoa por trás dele e poucos mentores estão preparados para essa conversa.

Todo empreendedor que entra num programa de aceleração diz mais ou menos a mesma coisa quando perguntado por que quer um mentor: quer feedback sobre o negócio, quer ajuda com marketing, com finanças, com vendas.

Depois de anos conduzindo mentorias, aprendi que essa resposta quase nunca é o problema real.

Na maioria dos casos que já acompanhei, e falo de 80%, 90% deles, o problema não está no negócio. Está na pessoa. São os próprios empreendedores que constroem as maiores barreiras à frente deles mesmos. Crenças que assumiram em algum momento e seguem reforçando, sem perceber, toda vez que decidem não agir.

O mentor que sabe tudo e o empreendedor que não faz nada

Existe um tipo de mentor muito comum nos programas de empreendedorismo: o que sabe resolver qualquer problema. Já empreendeu bastante, já colecionou resultados, consegue enxergar rápido o que está errado e listar, com precisão, tudo que precisa ser feito.

O empreendedor concorda com tudo. Parece convencido.

No dia seguinte, não faz nada.

Esse padrão se repete com uma frequência que deveria incomodar qualquer mentor. E a pergunta que vale fazer não é “por que ele não executou” é “por que ele concordou sabendo que não ia executar”.

A resposta quase nunca está na lista de tarefas. Está em algum lugar que o mentor nunca tocou: a insegurança da pessoa, a zona de conforto que ela defende com explicações bem construídas, a crença de que a situação do mentor é privilegiada demais para servir de exemplo, ou simplesmente uma convicção antiga e nunca questionada. Enquanto essa crença não for atacada diretamente, nenhum plano de ação sobrevive ao primeiro obstáculo.

Dois modelos antigos, e um terceiro que inventamos no Brasil

Clutterbuck já tinha mapeado modelos de mentoria há tempos. Ele descreve dois modelos:

O primeiro é o modelo patrocinador, mais comum nos Estados Unidos. O mentor usa o próprio poder e a própria rede para abrir portas ao mentorado. Funciona bem enquanto o mentor tem o que oferecer  e falha quando essa rede se esgota, ou quando a relação termina. É um modelo que termina em insucesso: acaba porque parou de ser útil.

O segundo é o modelo desenvolvimentista. Aqui o mentor não empresta poder, ajuda o outro a desenvolver a própria capacidade. E a relação termina de um jeito completamente diferente: termina em sucesso, quando o mentorado já não precisa mais dela.

No Brasil, construímos um terceiro modelo, um que eu mesmo nomeei, sem que ele existisse formalmente antes: o modelo consultivista. O nome carrega um tom crítico de propósito, porque acho que precisamos nos dar conta de que criamos algo próprio que aborda apenas os problemas do negócio, como uma espécie de consultoria que nunca avança para ação. Provavelmente é herança dos grandes programas de aceleração, que entravam nas empresas fazendo diagnóstico, listavam falhas e oportunidades, e entregavam isso pronto para um mentor trabalhar em cima.

Nesse modelo, o mentor aponta falhas, faz a leitura da empresa e constrói um plano de ação, e o empreendedor executa ou, na maioria dos casos que já vi, não executa.

O problema não é a qualidade do diagnóstico. É que o poder de diagnosticar nunca sai da mão do mentor. O empreendedor nunca é convidado a se conhecer melhor — só recebe soluções prontas para problemas que outra pessoa identificou por ele. E isso, no fim, cria a mesma dependência do modelo patrocinador, só que disfarçada de método.

O loop que ninguém percebe que está entrando

Quando o plano de ação não é executado, porque faltou capacidade, porque a crença limitante continuava intacta, ou porque a pessoa concordou na sessão só para não desagradar quem estava ali tentando ajudar, o empreendedor segue para a próxima mentoria. E para a próxima. Os mesmos problemas voltam, sessão após sessão e a empresa manté-se constantemente em fase de diagnóstico.

E aos poucos, sem perceber, o empreendedor não está apenas deixando de resolver questões importantes do negócio. Está aprendendo a conviver com problemas não resolvidos. Está incorporando a procrastinação como parte de quem ele é. Este é o dano mais duradouro que uma mentoria mal conduzida pode causar.

O que muda quando o foco vira a pessoa

Uma mentoria boa compartilha conhecimento, motiva, empodera, mas não prescreve, e não faz pelo outro. O mentor existe para ser um mecanismo através do qual o mentorado desenvolve quatro coisas: autodidatismo, autonomia, autodiagnóstico e autoliderança.

Isso muda até a forma como o mentor deveria medir o sucesso de uma sessão. Se a métrica do mentor é a qualidade do diagnóstico ou a qualidade das ações apontadas como necessárias, o problema já começou ali.

Uma métrica melhor seria: o mentorado conseguiu narrar, com as próprias palavras, qual caminho está construindo? Conseguiu nomear uma crença que derrubou? Saiu um pouco mais seguro de si porque foi desafiado e venceu esse desafio?

Isso é bem diferente de sair de uma sessão com uma lista de tarefas.

Um movimento que o nosso ecossistema precisa fazer

Isso importa ainda mais em negócios ligados à bioeconomia e ao impacto. São empreendedores com uma camada diferente de propósito e complexidade pessoal e mentorá-los só pelo ângulo do negócio é desperdiçar a parte que mais faz diferença.

Nenhum dos três modelos precisa ser descartado por completo. Dá para combinar um pouco de patrocínio, um pouco de leitura consultiva, um pouco de desenvolvimento, desde que o centro da mentoria seja sempre a pessoa, não a planilha.

Porque quando você forma alguém autônomo, autoconsciente, autodidata, com autoliderança, o resto vira consequência. Essa pessoa vai atrás dos próprios problemas e resolve por conta própria, com ou sem você do lado.

Da próxima vez que você sair de uma mentoria, vale se perguntar: o que essa pessoa saiu sabendo sobre si mesma, que ela não sabia antes de entrar?

A responsabilidade do outro lado

E aqui vale uma ressalva, é muito confortável para o empreendedor que está lendo isso concordar com tudo e pensar que o problema são os mentores. Muitos empreendedores entram numa mentoria esperando que o problema se resolva como passe de mágica, e evitam encarar que boa parte da dificuldade nasce das próprias escolhas, das próprias evitações, das próprias crenças.

Um mentor te ajuda a construir o caminho, mas o caminho é seu para construir, não para receber pronto. Quando isso se perde, é comum ver empreendedores pivotando o negócio inteiro atrás de um feedback qualquer, sem nunca parar para entender por que estão fazendo aquilo.

Se você é o empreendedor lendo este texto, o convite é simples: entre em cada sessão de mentoria como quem vai fazer uma descoberta. Investigue, pergunte, enfrente os seus medos. Não entre como alguém que vai receber a resposta pronta de outra pessoa. Autonomia não é algo que um mentor entrega, é algo que só existe quando você decide construir, por conta própria, uma forma de acompanhar o próprio progresso.

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