Temos falado tanto sobre saúde mental, propósito e a necessidade de encontrar mais sentido no trabalho, e existe uma pergunta simples sobre a qual vale a pena refletir: o que estamos fazendo com tudo o que já aprendemos?
Conhecimento, experiência, repertório, erros, acertos, contatos, histórias. Tudo o que acumulamos ao longo da nossa trajetória profissional pode continuar restrito ao nosso próprio negócio ou carreira, ou pode ganhar novos sentidos quando compartilhado. Foi a partir dessa reflexão que iniciamos um processo de entrevistas com os atuais mentores da Jornada Amazônia, buscando entender como aprimorar a experiência de mentoria.
“O que faz você dedicar parte do seu tempo para apoiar, de forma voluntária, um negócio da bioeconomia?”
As respostas foram diversas, mas encontramos um elo: a vontade de gerar valor além do negócio e contribuir para algo que também importa para o planeta. Afinal, o que é importante considerar quando levamos nossa experiência para um contexto de impacto?
Antes do negócio, estão as pessoas
Mentorar é, antes de tudo, uma relação entre pessoas. Parece óbvio, mas em um mundo cada vez mais mediado por tecnologia e inteligência artificial, essa dimensão humana ganha ainda mais relevância, especialmente quando nos aproximamos de negócios que têm o impacto como premissa.
Antes de olhar para modelo de negócio, mercado, estratégia ou indicadores, é preciso entender quem está à frente da iniciativa, compreendendo seus porquês e sua história.
No contexto dos negócios de impacto, essa escuta precisa ser ainda mais cuidadosa. Muitos empreendedores chegam à Jornada Amazônia vindos da pesquisa, da ciência, de comunidades tradicionais ou de experiências diretamente relacionadas aos desafios que querem resolver. Muitos ainda não empreenderam, conhecem profundamente os territórios e estão construindo, pela primeira vez, uma estratégia para transformar conhecimento em negócio. Compreender a história por trás da iniciativa é fundamental.
Quem produz a matéria-prima? Quem transforma? Quem compra? Quem será impactado? O que muda na vida dessas pessoas? Quais relações existem ao longo dessa cadeia?
A história da Homci, por exemplo, nasce de uma experiência pessoal relacionada à saúde do pai de Rodolfo e se transformou em uma iniciativa que leva a kombucha com sabores amazônicos para o mercado. A Live Aloe surgiu a partir do conhecimento da Dra. Lívia, médica fitoterapeuta, e da experiência de Gilberto Lima, que passou a cultivar a babosa em seu sítio — história que chega até suas filhas, Deborah e Janaina, hoje à frente do negócio. Por isso, um mentor nesse contexto precisa preservar o olhar humano, a capacidade de construir relações e a escuta cuidadosa.
O negócio é o caminho para o impacto acontecer
Não estamos romantizando o empreendedorismo. Negócios de impacto são negócios. Precisam vender, gerar receita e lucro, conquistar clientes, crescer, tomar decisões difíceis e encontrar um modelo que permita que o impacto continue acontecendo. Sem sustentabilidade financeira, o impacto não acontece e pode até deixar de existir. É aqui que a experiência de um mentor de mercado se torna tão valiosa.
Muitos negócios de impacto nascem a partir de uma grande causa, de uma pesquisa, de uma necessidade do território ou de uma solução para um problema socioambiental. Existe propósito, conhecimento e, muitas vezes, uma solução com enorme potencial. Transformar este potencial em um negócio sustentável é um outro desafio.
É preciso entender de mercado, posicionamento, cliente, precificação, vendas, marketing, gestão e estratégia. E é justamente nesse ponto que o conhecimento de quem já percorreu esses caminhos faz diferença. O mentor não precisa ser especialista em Amazônia, bioeconomia ou impacto. Precisa colocar sua expertise a serviço daquele contexto e compreender como ela pode gerar valor.
Um profissional de vendas pode ajudar a estruturar uma estratégia comercial. Alguém de marketing pode contribuir para traduzir uma proposta complexa em uma narrativa que faça sentido para o mercado. Um executivo pode ajudar em decisões estratégicas. Quem tem experiência em gestão pode apoiar o empreendedor a organizar processos e prioridades. A expertise continua sendo extremamente relevante. O que muda é o contexto em que ela será aplicada.
Além da estratégia: visão sistêmica
Em negócios de impacto, não estamos olhando apenas para uma empresa, mas para um sistema. É preciso considerar a cadeia de valor, o território, os recursos naturais, a comunidade e as relações econômicas e sociais que fazem parte daquela realidade. Uma decisão aparentemente simples para a empresa pode produzir consequências em diferentes pontos dessa rede. Por isso, a visão sistêmica precisa estar presente desde o início da conversa. A visão sistêmica torna-se aliada da estratégia. É nesse encontro entre propósito, negócio e contexto que o impacto pode realmente acontecer.
Mentorar não é fazer pelo outro
Existe ainda uma diferença importante entre mentoria e consultoria. Mentorar não é chegar com a resposta pronta. É fazer com o outro, acompanhar, fazer perguntas, compartilhar experiências, provocar reflexões e abrir caminhos. Apresentar possibilidades que talvez ainda não estejam no radar do empreendedor.
Em um contexto tão complexo quanto o da Amazônia, ninguém tem todas as respostas. Por isso, a mentoria é também um processo de aprendizagem contínua e mútua. O mentor compartilha sua experiência, mas também aprende com o mentorado, com o território, com outras perspectivas e com problemas que talvez nunca tenha enfrentado.
Antes de qualquer ferramenta, existe uma relação humana. Propósito sem modelo de negócio não sustenta o impacto. Além da empresa, existe um sistema que precisa ser compreendido.
E onde entra a inovação?
É justamente aqui que inovação e impacto se encontram de uma maneira muito potente. No contexto de impacto, somos convidados a pensar em valor integrado: para o negócio, para as pessoas e para o ambiente. Isso exige fazer perguntas diferentes e, muitas vezes, questionar padrões que pareciam naturais.
A Teoria U, desenvolvida por Otto Scharmer, traz uma provocação que conversa muito com esse desafio: “Por que estamos criando coletivamente resultados que ninguém quer?” A pergunta nos convida a olhar para além das soluções conhecidas e dos padrões que nos trouxeram até aqui. Em ambientes complexos e incertos, como o da bioeconomia amazônica, precisamos também refletir sobre o futuro que queremos ajudar a construir e o que precisamos fazer para alcançá-lo.
Então, por que mentorar?
Mentorar também desenvolve quem mentora. Ao ajudar alguém a pensar sobre um problema, somos convidados a organizar aquilo que sabemos, questionar nossas próprias certezas, adaptar nossa comunicação e exercer uma liderança que não depende de autoridade formal. Estudos sobre mentoria mostram associações entre a atuação como mentor e resultados como desenvolvimento de liderança, aprendizagem, desempenho, satisfação profissional e percepção de sucesso na carreira.
Mentorar em contextos não habituais enriquece a experiência profissional. Um executivo pode chegar trazendo anos de experiência em seu setor e encontrar novos territórios, modelos de negócio, cadeias produtivas e desafios que ampliam seu repertório.
No contexto da bioeconomia amazônica, os desafios são diferentes, como a logística, por exemplo. Os resultados envolvem outras variáveis, considerando o impacto como parte dos indicadores. Uma experiência compartilhada pode economizar tempo, evitar erros e acelerar caminhos. Uma pergunta pode revelar um problema que ainda não estava sendo considerado. Uma conexão pode ajudar a abrir várias portas.
Assim, o mentor contribui para mudanças que ele também deseja ver no mundo, e que muitas vezes não consegue realizar no âmbito do modelo de atuação profissional que exerce. O conhecimento ganha outra dimensão quando deixa de ser apenas patrimônio individual e passa a circular. O que você sabe que pode ajudar a transformar o futuro?
É essa pergunta que está por trás da construção da nova Jornada de Mentores da Jornada Amazônia. Estamos refinando nossa comunidade para criar relações ainda mais genuínas, ampliar as trocas e aproximar pessoas com diferentes repertórios e experiências. Queremos também ampliar nossa conexão com o Norte e trazer para o centro da conversa pessoas que vivem o território e têm uma relação direta com a floresta em pé.
Queremos construir uma comunidade de pessoas dispostas a colocar aquilo que sabem a serviço de algo maior. Você não precisa conhecer profundamente os negócios de impacto para ser um bom mentor. Precisa ter curiosidade para compreender o contexto, disposição para escutar e vontade de compartilhar aquilo que construiu ao longo da sua trajetória.
Mentorar em contexto de impacto é menos sobre ter todas as respostas e mais sobre estar disposto a construir melhores perguntas junto com quem está buscando transformar uma realidade.
Estamos realizando uma trilha de três encontros para aprofundar essas conversas e refletir sobre o papel do mentor em negócios de impacto, com a participação de pessoas que vivem e constroem a Amazônia a partir de diferentes perspectivas. Se essa conversa faz sentido para você, venha ser parte dessa construção.
E um agradecimento especial a todos os mentores da Jornada Amazônia que já estão conosco, transformando conhecimento em troca, conexão e impacto.

