Da floresta ao mercado: startup transforma castanha-do-pará em bebida vegetal e atrai investimento para expandir 

O mercado global de alimentos passa por uma transformação impulsionada por consumidores que buscam incorporar mais alimentos de origem vegetal à alimentação. No Brasil, os flexitarianos, que adotam uma alimentação predominantemente plant-based, já representam 21% da população, segundo pesquisa do The Good Food Institute Brasil.

O desafio diário desse público é encontrar produtos à base de plantas que entreguem sabor e performance culinária, superando a consistência mais líquida comum a muitas bebidas vegetais. Foi exatamente para responder a essa demanda, unindo tecnologia, sustentabilidade e ingredientes de biomas brasileiros, que nasceu a startup Cuíca, em 2016. A trajetória da foodtech mostra como a estruturação do negócio e a busca por maturidade operacional são os verdadeiros catalisadores para atrair investimentos consistentes na bioeconomia.

Unindo propósito, ciência e extrativismo

A criação da Cuíca partiu da inquietação de duas fundadoras com diferentes trajetórias profissionais: Bianca Oglouyan, com experiência em hotelaria e gastronomia, e Cristina Frange, com formação em serviço social. O objetivo era claro, aliar impactos nutricionais, sociais e ambientais ao desenvolvimento de um produto com foco no mercado externo.

“A nossa ideia sempre foi essa, né? Como a gente vai unir tecnologia, ingredientes que mantêm a floresta em pé ou a regeneram, para fazer produtos que tenham essa vocação de exportação, para tirar o Brasil daquele lugar de exportação de commodity“, aponta Bianca, CEO da Cuíca.

A bebida vegetal de castanha-do-pará foi escolhida como o primeiro produto da marca, escolha também relacionada à estratégia de internacionalização, já que a castanha oferecia uma base mais consolidada para a entrada em mercados externos por ser conhecida internacionalmente. O processo de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) levou dois anos e contou com parcerias científicas estratégicas junto à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ao Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) e à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O desenvolvimento considerou inclusive as características das castanhas provenientes de diferentes territórios brasileiros, que apresentam variações nutricionais e sensoriais entre si.

O resultado é uma bebida Clean Label de textura cremosa e perfil barista. Segundo Bianca, o produto se diferencia no mercado por utilizar castanha-do-pará obtida exclusivamente por meio do extrativismo, enquanto grande parte das bebidas vegetais disponíveis depende de ingredientes provenientes de monoculturas.

A preocupação da Cuíca não se limita à composição e saudabilidade da bebida, mas envolve características como sabor, textura e usabilidade. O uso da castanha integral também contribui para o desempenho sensorial da bebida, diferenciando-a de produtos que utilizam subprodutos da extração do óleo. Para chegar à formulação, a startup também realizou testes voltados à redução do uso de aditivos e conservantes. No caso da bebida de castanha, a tecnologia UHT contribuiu para ampliar o shelf life e preservar as características sensoriais do produto. 

O desafio da estruturação e o papel do Sinergia

Ter um produto excelente é apenas o primeiro passo. Transformá-lo em um negócio escalável exige um refinamento tático profundo. Durante seu período de aceleração, a Cuíca contou com o suporte estrutural do programa Sinergia Investimentos, que auxiliou na organização contábil por meio da empresa Planning. Além disso, mentorias focadas em tração, proposta de valor e visão estratégica do negócio brasileiro, conduzidas por Estevan Sartorelli, diretor executivo da Dengo, têm sido fundamentais para a preparação da startup.

A mentoria também ajudou a startup a entender como equilibrar os atributos de sustentabilidade e nutrição com a sensibilidade do consumidor brasileiro ao preço, buscando uma proposta de valor que seja percebida pelo consumidor e, ao mesmo tempo, viável comercialmente.

A pluralidade de competências da equipe e a força desse ecossistema de apoio não passaram despercebidas pelos investidores. A complementaridade entre as fundadoras foi um dos aspectos considerados pela RG Futures, já que Bianca e Cristina reúnem experiências e competências diferentes na condução do negócio.

Daniela Amendola, representante da RG Futures, destacou a importância dessa base na avaliação de risco: “A gente achou que elas tinham uma complementaridade importante. É uma coisa que a gente gosta quando vê que o empreendedor não tá sozinho. […] Eu acho que a Jornada tem um papel assim que é muito importante nessa parte do networking. Quanto mais gente olhando, mais gente ajudando, a chance do negócio amadurecer e passar da arrebentação [é maior]”.

Além dessa relação, destacam-se outros aspectos que chamaram a atenção da RG Futures para a Cuíca. Entre eles estão a escolha da castanha-do-pará como matéria-prima, um produto de relevância para a Amazônia, e o compromisso da startup com a rastreabilidade de sua cadeia. Para Daniela, essa iniciativa contribui para a valorização da castanha e para a geração de impacto real ao longo da cadeia produtiva.

O ponto de virada: co-investimento e Smart Money

Com o modelo de negócios estruturado, a Cuíca estava pronta para a captação. Foi nas rodadas de apresentação a potenciais investidores promovidas pela Jornada Amazônia que a startup se conectou à RG Futures, braço de investimentos da RG Think Food. A aproximação evoluiu para o primeiro investimento na foodtech pelo family office em questão, integrando uma rodada de co-investimento que contou com o Sinergia Investimentos e a Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (CERTI).

A RG Think Food atua em quatro verticais estratégicas: Food, Agro, Waste & Impacto e Wellness. Mais do que injetar capital, a RG Futures opera como Smart Money, utilizando sua vasta experiência em consultoria, tendências de mercado e comportamento do consumidor para orientar decisões relacionadas aos caminhos de crescimento do negócio. Um exemplo prático foi o cuidado com a segurança jurídica logo no primeiro aporte, quando a gestora disponibilizou uma advogada especialista em capital de risco para redigir a minuta contratual inicial da Cuíca. 

“A importância de você ter bons contratos, para que, depois, esses contratos ajudem você nas próximas rodadas e não sejam empecilhos, né? Que muitas vezes a gente vê em empresas que chegam aqui, às vezes até fundos que entram de uma maneira que depois atrapalha as próximas rodadas”, explica Daniela.

A gestora de capital considera que o modelo de co-investimento não apenas contribui para compartilhar os riscos de uma operação em estágio inicial, mas também funciona como uma validação da análise realizada sobre o negócio. Para ela, o acompanhamento próximo e o conhecimento acumulado sobre a empresa por parte da Jornada Amazônia oferecem uma camada adicional de segurança no processo de diligência prévia (due diligence).

Isso porque a Cuíca participa do Sinergia há dois anos. O programa integra a Jornada Amazônia, iniciativa coordenada e executada pela Fundação CERTI, e oferece benefícios como mentorias, suporte ao desenvolvimento de produtos e à modelagem financeira. Como hub de investimentos da Jornada Amazônia, o Sinergia Investimentos tem como um de seus principais ativos o apoio a negócios em estágio pré-seed que precisam de capital e suporte estratégico para avançar. Essa atuação segue a abordagem de Capital Evolutivo, com investimentos adaptáveis a cada negócio e focados em impacto, tração, conexões de valor e inovação.

Tração comercial e a visão de futuro

Os aportes financeiros recebidos têm destino certo: financiar degustações, impulsionar o marketing digital e gerar tração comercial. Após um ano focado na experimentação e validação pelo consumidor, a estratégia de Go-to-Market ganhou escala, culminando no fechamento de contratos para comercialização de produtos na Casa Santa Luzia e em 17 lojas da rede varejista Mambo, além da expansão para praças como Goiânia, Brasília e Rondônia.

A estratégia de entrada no varejo também envolve contato direto com os consumidores. Nas degustações realizadas, a equipe acompanha a resposta aos produtos nos pontos de venda, utilizando essas interações para entender hábitos de consumo e orientar novos desenvolvimentos. “A gente tá nessa fase de experimentar o mercado e aí alguns mercados funcionam muito bem, outros nem tanto”, conta Bianca.

Esse contato já influencia o desenvolvimento do portfólio. A partir das conversas realizadas nos pontos de venda, a equipe identificou, por exemplo, a oportunidade de desenvolver uma versão infantil de cacau para atender famílias que já consomem bebidas vegetais, mas encontram resistência das crianças.

Para os próximos dois anos, a Cuíca projeta a consolidação em pontos de venda estratégicos no território nacional e a ampliação de suas exportações. A rodada de captação permanece aberta para financiar a diversificação do portfólio, com planos para uma versão infantil de cacau e uma variação com cumaru, além de pesquisas internacionais em parceria com a Universidade de Wageningen, na Holanda.

O legado que o case da Cuíca está construindo para o ecossistema da bioeconomia é que o investimento funciona como um acelerador apenas para quem já pavimentou a própria estrada. Para empreendedores que enfrentam a mesma jornada, Bianca Oglouyan deixa um conselho prático: 

“Eu acho que resiliência, persistam, não é fácil. É um caminho tortuoso, assim, a gente imagina uma coisa, a gente imagina uma velocidade, e a velocidade do mercado é outra. Vai fazendo que o mercado pede, estuda todas as mentorias”.

Conheça mais em: https://www.cuicabrasil.com/

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